O movimento dos carros, as pessoas passando, o barulho de sirenes, embora pareça estressante para a maioria das pessoas, aquilo tudo era profundamente relaxante para ele, o problema de lidar com mortos, é que nada acontece. E ver as coisas acontecerem lá fora, lembrava a ele que ainda existia vida no mundo.
O porteiro do prédio ao lado, Seu Marcos, sabia que quando Ricardo saía, havia algo realmente perturbador lá dentro, e como bom amigo, foi ouvi-lo.
- E então doutor, quais são as novas?_ perguntou Seu Marcos, aproximando-se de Ricardo.
- Boa Noite, Seu Marcos. Não é nada de mais, já contornei coisas piores.
- É mais uma criança? Crianças realmente mexem com a gente, né doutor?
- Se fosse uma criança, talvez eu estivesse mais calmo. É uma mulher, uma linda mulher, parece que a conheço.
Ricardo ao dizer essas palavras lembrou as curvas de Dulce, o rosto perfeito, cabelos longos caídos nos ombros, castanhos escuros, lábios carnudos projetados à frente, como se estivesse sempre pronta para mais um beijo. Olhos cor de mel, e mesmo diante da palidez da morte, a pele perfeita, morena. Ricardo nunca fora necrófilo, vira os corpos como coisas e nunca como pessoas, e mesmo que visse Dulce com profundo respeito, temia o sentimento dentro dele, era algo que jamais sentira antes, bem longe da excitação, mas beirando a felicidade, sem razão alguma, seu coração parecia querer explodir.
E antes que continuasse pensando, Seu Marcos interrompeu:
- Mas o que é isso doutor? Essas danadas, mesmo depois de mortas tiram o sossego da gente! Hahaha
- Pessoas como o senhor tornam minha vida mais bonita. _ respondeu Ricardo.
- Deixa disso doutor.
- O senhor é uma grande motivação. Boa Noite, vou terminar meu trabalho.
-Vá com Deus doutor.
Ricardo cruzava os corredores do IML mais confiante. E dentro de sua cabeça repetia a si mesmo que afinal Dulce era uma bela mulher, e belas mulheres causam isso em homens, era assustador para ele, que nunca se intimidara diante de nada, mas tudo que tinha de fazer é assumir o seu dever, sem medo.
Entrou na sala onde estava o corpo de Dulce, ligou o som, preparou as ferramentas, e parou diante do corpo, refletindo sobre todos os casos que já via pegado, e resolvido, casos muito piores do que aquele. Tomou o bisturi em mãos, respirou fundo e começou a projetar um corte no peito do corpo de Dulce, o corte ia prolongando por entre seus seios, e Ricardo ia se sentindo cada vez mais sujo, a confiança saía de si como água de um rio. O corte se tornava cada vez mais raso e irregular. Ele simplesmente não era capaz, havia um dragão imune à sua espada, não sabia o que fazer, aquele corpo devia ser analisado, dissecado. Ela poderia ter sido mesmo assassinada, e não podia se conformar com a liberdade de um assassino graças à sua falta de capacidade. Desligou o som para pensar melhor, sentou-se no chão tentando entender o que levara sua vida aquele ponto. Para Ricardo, aquilo era a pior coisa que poderia acontecer, não poderia haver falhas, médicos devem beirar a perfeição em seu trabalho. Transtornado, ele viu Dulce postada diante da porta, com expressão séria, e de desdém, seu olhar subjugava-o por tamanha covardia, ele levantou-se incrédulo, e aproximou de Dulce, foi quando de repente, a porta abriu.
Ricardo deu um pulo para trás. Era Nonato, o rapaz projetou um leve sorriso, que cessou antes que o doutor pudesse perceber. Contendo o riso, Nonato perguntou:
- Doutor, eu gostaria de acompanhá-lo nesse caso, eu me senti pessoalmente envolvido com ele. É um caso um tanto desafiador, por que se houver um assassino, as pistas concretas estão no corpo e somente nele.
O garoto era muito pretensioso, Ricardo sabia que ele só estava ali por que percebera sua fraqueza, ele se achava o máximo, e aquela seria a chance de destaque. Porém, não havia momento melhor para Nonato chegar, um garoto como aquele queria vencer na vida, era a solução de seus problemas. Mas ele sabia que não podia dar o caso para um estudante. Ricardo decidiu entender aquilo como ofensa, sair da sala nervoso, mandar Nonato procurar outro médico para supervisionar tudo. Ele sabia que se descobrissem que ele abandonara o caso pela metade, sofreria punições. Mas Nonato não diria nada, ele faria tudo sozinho, para mostrar o quanto seria capaz, e depois daria os créditos para Ricardo, para se redimir. Era um puxa saco!
Nonato continuava parado, esperando resposta. Quando Ricardo ‘explodiu’.
- Você pensa que me engana com seu teatrinho Nonato? Eu sei o que você quer aqui! Pois se você acha que é médico melhor do que eu! Cuide do corpo sozinho! Vá, peça à Carmen para te ajudar, ou o Gilberto! Todos são seus puxa saco mesmo, não é?!
Ricardo saiu nervoso da sala, e como previsto, Nonato não tomou nenhuma atitude. Quanto a ele, ele iria embora, tomar um banho. Mais tarde voltava, dava uma olhada no corpo e batia cartão.
No elevador, Ricardo sentia-se ainda pior. Além da covardia, ele já havia mentido e coagido um estudante. Mas não havia solução melhor, além disso, Nonato era o seu dito ‘sucessor’, era realmente bom, daria conta do trabalho.
O elevador parou, na garagem, e a porta abriu devagar, diante de Ricardo surge Dulce novamente, com mesmo olhar de negação. Ele fecha os olhos com força, convencido de que era apenas uma alucinação, ao abrir não havia ninguém. Ele precisava mesmo de um banho.
CONTINUA
Interessante a história... Esperando o próximo capítulo.
ResponderExcluirGosteii!! Cade o proximo???
ResponderExcluirCuriosaaa rsrs