sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Feridas que não fecham

João, parado, pensou no que Aluízio ganharia fazendo uma brincadeira daquelas. Os médicos foram categóricos em dizer que os tiros foram de raspão e que não havia furos ou ferimentos profundos no corpo dele. Analisou o amigo, com rugas muito mais profundas do que as dele, a expressão, especialmente naquele dia, preocupada e cansada. Suas mãos estavam em um tom avermelhado, do mesmo jeito de quando cai um pouco de sangue e tentando limpar acabamos espalhando tudo. Por um instante olhou as balas na mesa, de aparência fosca, entre as falhas de sua superfície notava-se sangue seco incrustado. Ao que parecia, Aluízio não estava brincando, é claro que as balas não podiam ter saído de sua cabeça, mas o que quer que tivesse ocorrido, ele não podia entender de outro modo.

- Por que cê acha que elas saíro da minha cabeça?

- Ce deve ta pensando que eu sô doido, mas ontem quando eu tava te segurando, eu senti a sua cabeça latejando muito, tinha um buraco enorme nela, parece que o menino acerto os tiro muito pertinho um do otro. _Aluízio ajeitou-se na cadeira_ De repente parou de latejar, e saiu essas bala. Foi quando parou de sangrar e ocê acordô.

- Aluízio, não tem condição o que cê ta me dizendo, não tem buraco nenhum na minha cabeça, os médico dissero pra Carme que não tinha nenhum ferimento profundo nela. Na verdade, eles dissero que não tinha nenhum ferimento grave!

- João, eu num...

A porta abriu, entra outra enfermeira, que pede calmamente para Aluízio se retirar.

O senhor sai sem se despedir, puxa as balas consigo e guarda no bolso, onde manteve a mão alisando-as, soava como se quisesse conferir se eram mesmo reais. Passou pela porta sem olhar para trás, enquanto João olhava-o pensativo.

João continuou no hospital por mais um dia em observação. Estranhamente, não sentia um pingo de dor que fosse, e a verdade é que as mãos estavam perfeitas, não tremiam mais e agarravam coisas com firmeza, coisa que há tempos não acontecia. O médico recomendou que ficasse alguns dias em repouso, e permitiu que João trocasse os curativos, visto que ele não permitiu que ninguém tocasse. Seu filho o pegou de carro, sem dificuldade João entrou, e depois de conversarem um pouco pediu que antes de ir para casa fossem ver Aluízio.

Luiz deixou o pai na casa de Aluízio, e foi ver um amigo enquanto isso. João tocou a campainha de som elétrico e estridente, e esperou até que o amigo fizesse o longo caminho pelo corredor que dava acesso ao seu barraco. A loja de João ficava do lado de sua casa, Aluízio era viúvo e dividia o terreno com satisfação. Com expressão derrotada abriu a porta. João caminho com o amigo em silêncio até o barraco levando uma caixa de primeiros socorros na mão. Aluízio caminhava devagar até a cozinha, e foi quando João fez um pedido, sentando-se no sofá.

- Vêm, tira meus curativo, quero que cê veja com seus próprios olhos. _ João tirou a camisa, mostrando duas outras bandagens na barriga, próximas do peito.

Aluízio parecia não entender muito bem, olhou assustado para João que abria a caixa e colocava alguns artigos sobre a mesa de centro.

- Vai, tira os curativo da minha cabeça, veja ocê memo. Eu num quero vê você com essa cara pra sempre.

- Eu não sei mexer com essas coisa, é perigoso João.

-Não me importa não, vamo tira isso em nome da nossa amizade!

Aluízio se aproximou quase tão devagar quanto no dia do ocorrido, sentou-se perto dele e puxou com cuidado o curativo, que sozinho tampava os três ferimentos. Os olhos de Aluízio encheram-se de lágrimas, e por dentro ele sentia como se não fizesse parte do próprio corpo, uma cicatriz completamente fechada, com fios de cabelo apontando pelas bordas deixou-se mostrar.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Deus existe?

Ninguém tinha certeza da quantidade de tiros, mas todos saíram logo para a rua, curiosos. Aluízio morava perto dali, ao ouvir os tiros, temeu o pior. Era fato que a região estava sendo alvo de muitos assaltantes. Antes que outros tomassem atitude, correu para dentro da loja e entre mercadorias, água suja e o corpo de João havia uma poça de sangue muito maior do que as pessoas imaginam quando essas coisas acontecem.

João não respirava, algumas pessoas se aproximavam gritando, e contendo as próprias pernas, Aluízio caminhou rumo ao corpo, pegou a cabeça do amigo no colo, com as mãos por trás de sua cabeça, emaranhada por seus invejados cabelos negros, sentiu o sangue escorrer por um ferimento de bala. Luiz surge na porta, desesperado, e de longe se ouvia o barulho das sirenes chegando. Luiz desabou ajoelhado, em prantos. Aluízio sentiu a mão pesar e gelar ao mesmo tempo, sem reação. Foi quando João inspirou como se estivesse voltando de um mergulho profundo. Ergueu o corpo fortemente, confuso. Antes de esboçar reação, o SAMU, surpreendentemente rápido afastou todos de João, que falava com um pouco de dificuldade. Aluízio saiu dali levando algo em suas mãos, Luíz em estado de choque foi acolhido pelos enfermeiros.

Enquanto tudo acontecia, Aluízio sentou no degrau da porta incrédulo, temendo abrir as próprias mãos. Durante todo o acontecimento, até os ânimos se acalmarem permaneceu com as mãos fechadas. Ninguém o incomodou com aquilo, e pela rua se falava no quanto aquele bairro havia se tornado perigoso, e como o Seu João era um homem bom. Aluízio foi embora para casa, sem coragem de conferir o que trazia ali nas mãos.

Dentro da ambulância a caminho do hospital, João sentia um formigamento estranho na cabeça. Sentia-se cansado, e sem dor, muito provavelmente efeito dos remédios que aplicaram nele. Dormiu, em meio à confusão toda, e acordou no outro dia, sozinho no quarto do hospital, lembrava-se vagamente do ocorrido, e tentava identificar o local. Ao lado da cabeceira, um botão que possibilitava chamar aos enfermeiros, ele manuseou o aparelho sem entender. E em pouco tempo entra apressadamente uma enfermeira:

- Homem de sorte o senhor. Cinco tiros, todos de raspão. E apesar da idade, o senhor tem uma recuperação muito boa, o que anda comendo? _Disse a enfermeira, sorrindo.

- Cadê a Carmen? Onde eu to?

- No quarto do hospital Maria Euclides, parece que estreou o seu plano de saúde hein? A Dona Carmen vai entrar em algum tempo, tem muita gente ali fora. O senhor deve ser muito querido.

Enquanto falava, entraram Carmen e Luíz pela porta. Mantiveram-se distantes, sem reação, afinal nunca haviam visto João em estado parecido.

Algum tempo conversando, falando sobre como ele se sentia, e como haviam recebido e ficado preocupados quando a notícia chegou. Aluízio aparece na porta, Carmen entende que não era bom haver tanta gente no quarto, e que sendo Aluízio quem o havia encontrado os dois deviam ter algo para conversar. Aluízio deixou claro que só tinha vindo rapidinho, mas ela puxou Luíz consigo e deixou-os sozinhos.

Aluízio sentou em uma daquelas desconfortáveis cadeiras/cama de hospital, e fitou o amigo.

- Por que cê ta me olhando com essa cara Aluízio? _perguntou João.

- Como cê ta?

- Eu to bão, não to nos trinques, mas to bão, depois de tudo.

- João, que que cê lembra de ontem a noite?

- Lembro de estar com um moleque nas mãos, depois me lembro de você me segurando.

- João, eu nunca acreditei muito em milagre sabe...

- Chega desse papo Aluízio, sabe quantas vezes eu já ouvi hoje que Deus me salvou? A verdade é que eu sou um cagão, e o menino é um ruim de mira! _interrompeu João.

- Tinha tanto sangue João, eu num acho que ele tenha errado os tiro não...

- Deve ter acertado alguma veiazinha, lembra quando a gente era jovem, tava correndo do cachorro...

- E você caiu em cima do caco de vidro e pensou que ia morrer, no final era por causa da veiazinha. Mas sabe João, eu...

Aluízio não falou nada, pôs três balas amassadas em cima de uma mesa do lado.

- Que que isso Aluízio?

- Essas bala saiu da sua cabeça João.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Balas, pirulitos e chicletes

Sábado João levantou mais cedo do que o normal, mas não se sentia cansado, as mãos lesionadas não doíam tanto, ele se perguntava inclusive se aquilo era dor, ou era a falta dela, que depois de tanto tempo convivendo com ela, já não podia diferenciar. Passeou como um zumbi pelo terreiro, em pleno horário de verão o sol ainda não havia nascido.

Luíz trabalhava numa escola próxima, dando aulas, e logo se levantaria. Enquanto isso João admirava o céu, que nunca havia tido interesse em observar. Carmen levantava antes de Luíz, para preparar-lhe o café, e pela janela viu o marido sentado no banquinho improvisado com tábuas e tijolos, sonolenta e com a voz rouca, brincou:

- Brigô com a cama hoje João?

- Já viu comé triste quando o sol nasce e as estrela vai sumindo Carme?

- Que que tem as estrela?

- O sol vêm, e vai ofuscando as pequena uma a uma. Por isso que eu nã gosto desse povo grande, poderoso, eles ofusca os pequeno, que também brilha! Só não aparece igual eles.

- Tá tudo bem João?_ Carmen tinha um sorriso contido no rosto.

João levantou sem responder, sentou-se na sala e assistiu ao jornal da manhã, e ali ficou vendo o que tinha para se ver até dar hora de ir para a loja. João tinha este tipo de momento, e com o passar dos anos Carmen aprendeu a respeitar quando o marido estivesse pensativo.

O dia na loja seguiu como todos os outros. Já estava dando hora de fechar quando entrou um cliente. João não o conhecia, e ficou observando enquanto ele caminhava desorientado pelo espaço pequeno dali. Era comum que entre tantas coisas e pouco espaço as pessoas ficassem com aquele comportamento na loja, João prestou atendimento ao rapaz, que não aparentava mais do que 16 anos:

- Posso ajudar você em alguma coisa?

O menino tira a mão de dentro das calças e uma arma estava em sua mão. João tentou negociar:

- Fica calmo rapaz, aqui não tem muita coisa para se levar...

- Cadê o banheiro tio?!_O rapaz gritou para João que apontou para um canto da loja.

O menino levou-o até o banheiro, era um banheirinho simples com um sanitário e uma pia, a porta não tinha fechadura segura, apenas uma corda amarrada em um prego. Indeciso, o garoto mandou que ele deitasse no chão. João ficou ali deitado, estava assustadoramente tranqüilo, muito provavelmente porque sabia que o dinheiro não estava todo no caixa e não havia muito a perder.

Pouco tempo se passou até que o menino voltasse irado com algumas notas de 10 reais na mão.

- CÊ TÁ DE BRINCADERA COMIGO? Onde ta o resto do dinheiro?

- A loja é pequena, não tem mais nada não!

O menino puxou João com dificuldade até pô-lo de pé, e começou a revistar seus bolsos, enquanto gritava. João sentiu-se encorajado pela diferença de tamanho entre eles, e pela aparente falta de experiência do garoto. Partindo para cima do menino. O moleque se esquivou rápido de suas mãos, e sem hesitar descarregou a sua arma no homenzarrão, que caiu pesadamente no chão. O menino fugiu, levando 40 reais, balas, chicletes e alguns cigarros.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Todas as manhãs ele arrastava o chinelo direto para a sala, sentava-se no sofá por algum tempo onde tomava coragem para começar o dia. E todos os dias ele tomava coragem logo, se preparava e ia para a lojinha.

Todo bairro tem uma lojinha como aquela, que vendia de tudo, guloseimas, presentes, sapatos, cartõezinhos de natal, aniversário e insistentemente os cartões de namorados, que ninguém mais compra. Todos conheciam a lojinha do Silva, e talvez por isso o comércio rendesse o bom lucro, que dava para sustentar a família, família que já não era mais tão grande assim.

João Cavalcanti da Silva, homem mais comum impossível, porque de João o Brasil está cheio, aos 70 anos esbanjava virilidade não aparentando mais do que 50, com seu barrigão de chope e um cabelo lindo, negro com poucos fios brancos, fios tais que ninguém entendia o porquê da escassez. Aposentado por uma LER a mais de 30 anos, foi de bancário a dono de lojinha. Loja que ergueu e manteve de forma honesta, loja que possibilitou pagar a faculdade dos dois filhos, Raquel formada em direito e Luiz em educação física. A filha morava sozinha, para seu desespero seguido dos mimos aos fins de semana, quando ela vinha visitar a família.

João nunca quis expandir o negócio, era um homem tímido, risonho e debochado, sem grandes pretensões e era feliz com tudo o que tinha. Passava a semana na loja das 8h as 20h, aos domingos fechava mais cedo, quando ia beber com alguns amigos, aposentados que viviam por ali, entre eles, Aluízio, amigo de infância, com quem aprontou na adolescência poucas e boas, e ajuda a exagerar em todos seus épicos contos com as mulheres. João era casado com Maria, que por ser também Carmen, era conhecida por Carminha, mulher devota, que rezava o terço todos os dias, arrastava João à missa todos os domingos e fazia broas, broas divinas segundo João.

As cidades cresciam, e sem perceber a lojinha de João foi se acomodando entre os barracos do aglomerado que se tornou o pequeno bairro onde João morava. Na periferia, mesmo em meio a tantas coisas boas, existiam coisas ruins. Sendo conhecido por todos, João era protegido por marginais, mesmo com sua relutância em sentir-se parte daquilo. Por motivos que João nunca se quer havia parado para pensar, tudo estava prestes a mudar, ou pelo menos forçá-lo a isto.

terça-feira, 12 de abril de 2011

O dom (final)

No princípio as coisas correram como ele esperava, a polícia nunca mais tocou no assunto, e ele parou de ter 'alucinações'. Mas ele sentia algo estranho, um vazio, uma solidão tão grande que mal cabia no peito.

Marina não mais lhe satisfazia como companhia, nem os amigos ou mesmo as boas horas no IML.

Ricardo não podia acreditar, ele não conseguia sequer formular a idéia com clareza, mas ele estava apaixonado. Apaixonou-se por Dulce. E durante muito tempo conviveu com aquela dor no peito, e a saudade, saudade de alguém que não vira viva, que não passou momentos juntos. Mas que tinha um sentimento enorme. E não era pela beleza, ele não sabia explicar por que era.

Completando agora, pouco mais de um ano desde que vira Dulce pela primeira vez. Ricardo não se casara com Marina então, achou que seria crueldade casar sem amor, quanto mais agora que havia encontrado alguém feita para ele. E como podia pensar uma besteira tamanha, ele não entendia, mas ele amava outra.

E naquele dia decidiu visitar o túmulo de Dulce e não foi difícil para ele, sendo Dr. Ricardo, O cemitério ficava perto, era como esses que se vêem nos filmes ou na TV, mas nunca esteve de verdade. Bem iluminado, gramado, com árvores e flores por todo o ambiente. Bem no alto do lugar havia um túmulo perto de um ipê amarelo, e naquela época estava cheio de flores que caiam como neve formando um tapete amarelo por ao redor. Seus olhos encheram de lágrimas quando bem ali estava Dulce sorridente, como se o esperasse. Ele a fitou por um momento incrédulo, e o seu sorriso tomava a alma. Ele não podia tocá-la e nem ouvi-la. Mas aonde ele ia, Dulce estava.

Era mágico, mas de novo sentia-se feliz e realizado, e seu trabalho voltou a render os frutos que rendia. Alucinação ou não, ele nunca esteve tão feliz por ter algo ou mesmo alguém. Tomado por tamanha loucura, Ricardo já não se importava com o que poderia parecer e gostava de caminhar pelo parque e visitar pontos movimentados da cidade, locais que nunca o interessaram no passado, mas pareciam tão atraentes agora. Aos poucos, não via mais os amigos, nem a família e todo o tempo que tinha passava ao lado, daquela que ele chamava de Meu Amor.

Numa dessas andanças, Dulce desapareceu. Ele já não sabia mais o que era verdade ou mentira. Por perto havia duas prostitutas, e ele perguntou por Dulce, como quem pergunta por um parente ou um amigo desaparecido. Eram duas mulheres belas, mas maltratadas pela vida. A mais vistosa usava maquiagem pesada e o decote não estava adiantando de nada. Enquanto a outra usava cabelos amarrados, com brincos enormes e um vestido que parecia ser duas vezes menor que o seu tamanho.

- Meu querido, Dulce não está mais entre nós._Disse a mulher de cabelos amarrados_ Nós fazemos o dobro do que ela fazia pelo mesmo preço.

- Não, eu não vim atrás disso. Só preciso vê-la. _Respondeu ele meio tonto, perdido nas luzes dos postes e faróis.

- Ai, a Dulce e seus homens! _Disse a bem decotada, se afastando.

A mulher de cabelos amarrados ignorou a amiga e se aproximou de Ricardo, com expressão de pena nos olhos.

- Veja meu querido, eu sou Almira, e bem aconteceu uma fatalidade com Dulce. Ela tirou a própria vida a mais de um ano. Eu sinto muito.

- Não, não. Ela estava comigo, você não a viu? O que você sabe sobre Dulce? Talvez não estejamos falando da mesma mulher! Eu falo de uma bela mulher de cabelos castanhos, mais ou menos da minh...

A mulher o interrompeu.

- Eu sei quem é Dulce. Era a melhor e talvez a mais louca dentre nós. E acredite, ela se foi! Sentimos tanta falta dela quanto o senhor. _ O olhar mudou, parecia nostálgica e melancólica agora.

- Almira, me diga o que você sabe sobre ela? Eu... _Ricardo parecia querer hesitar, mas continuou_ Eu sou Ricardo, Dr. Ricardo, médico legista, eu fiz a autópsia de Dulce e desde então sinto ela perto de mim..!

- Como?! _Almira deu um passo para trás, mas se recompôs_ Tem certeza querido? Não brinque com uma coisa dessas, eu creio em espíritos e fantasmas, e se está tentando me assustar, está conseguindo.

- Não, é a verdade. _Ricardo não pretendia contar a verdade de fato, mas não podia resistir em conhecer o passado de sua amada.

- Bem, Dulce era uma mulher de ideais confusos. Ela estudou psiquiatria e optou por essa vida. Dizia que aqui enfrentava dragões que ninguém mais teria coragem de enfrentar.

Ricardo emocionou-se com essas palavras, pois eram as mesmas que o motivavam a trabalhar como trabalhava. Mas não entendia como aquele trabalho se encaixava na psiquiatria, e antes de perguntar, Almira prosseguiu.

-Meu querido, Dulce via a vida na prostituição como um trabalho em campo. Ela não aceitava qualquer homem, ela aceitava os homens de alma frágil e inseguros. Ela servia de companheira, pelo preço justo, por pouco tempo. Mas transformava a vida daqueles homens. _ Almira falava como uma grande amiga.

Ricardo sorriu alegremente, e se recompôs, não se sentia mais tonto. Despediu-se apressadamente e saiu em disparada rumo ao cemitério.

Os portões estavam fechados naquela hora da noite e via a luz da lanterna dos vigias perambulando. Ao redor do local havia muitos mendigos e usuários de drogas. Pagou a algum deles para fazerem estardalhaço por ali.

Em instantes os poucos vigias se aprumavam próximo aos portões e muros baixos, e naquela altura, Ricardo já estava dentro do cemitério. Usando um caminho que lhe indicaram.

O céu escureceu, e a chuva fina começou a cair, Ricardo não via Dulce perto do seu túmulo... E perdido nos próprios pensamentos, começou a cavar o barro molhado entre a grama e as flores de ipê, usando as próprias mãos. As forças iam se esgotando tão depressa que ele não notava que a cada instante estava mais próximo de desmaiar, e que o buracos que fazia não era nada perto do que tinha de cavar.

A água da chuva acumulava no buraco que fazia, e ele começou a sair de si. Quando caiu, caiu de cara no buraco que fizera, desmaiado. De braços abertos com o chão, como se tentasse abraçar o próprio chão. Em pouco tempo, já sem forças, Ricardo morreu ali. Afogou-se numa pequena poça de água suja. Não havia Dulce, nem Marina e nem amigos ali, agora. Em algum tempo os vigias encontraram o corpo, e assustadoramente Ricardo morrera com um aparente sorriso estampado no rosto.

(Depois de 3 anos, enquanto exumavam um corpo encontraram partes do corpo de Nonato, a polícia periciou, apontou Ricardo como culpado e arquivaram o caso.)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O dom (parte 5)

Ricardo refletia se aquilo era mesmo necessário, mas parecia não haver outro jeito. Ele tinha um corpo partido em 84 partes, e no máximo 4 dias para tirá-lo de lá, ele tinha uma maleta que não suportava mais do que 2 partes, e ele precisaria de tempo para dar sumiço em todas elas, não poderia fazer em duas viagens como se faz com um carregamento de areia. É, não havia outra maneira, se ele não queria ser preso, tinha de fazer aquilo. E para seu tormento, sentiu um calafrio no ombro e podia notar a presença de Dulce, e a mesma voz firme na mente dizendo:

- Faça!

A aparição dissipou como fumaça, e levou junto a sensação ruim de peso. Ricardo passou os olhos pelo relógio, faltavam 30 minutos para encerrar seu expediente, e chegaria Dr. Luís Fonseca, seu estimado colega. Entre os corpos daquele dia, havia o corpo de um indigente, sem família, entregue por policiais que o encontraram morto na porta de um banco. Era um caso simplíssimo, feito por mãos habilidosas, não levaria se quer uma hora, e em suas mãos especificamente, não levaria 30 minutos.

Encerrada a autópsia, porém com o corpo ainda aberto na mesa, Ricardo daria um passo sem volta, mas era necessário. Estraçalhou alguns órgãos, o que cedeu vasto espaço para acomodar 3 sacolas com partes do corpo de Nonato. Ninguém daria atenção a um indigente, seria enterrado de qualquer forma, Ricardo sabia que as próximas não seriam tão simples, mas haveria mais tempo para trabalhar em cada parte com cuidado.

Naquele dia, iam 3 sacolas no corpo e 2 em sua maleta, que ele daria fim em casa, com ácido ou mesmo em sua lareira. No outro dia resolveria o máximo que pudesse, e despacharia pelo menos 30 sacolas, ninguém estranharia, depois de pisar na bola entenderiam como um pedido de desculpas indireto.

Dia após dia, Ricardo fora levando partes do corpo de Nonato em sua maleta e nos corpos que passavam por suas mãos, e sem nenhuma gota de culpa. As aparições de Dulce tornaram-se mais freqüentes, e no quarto dia, bem antes de encerrar o seu turno, já havia concluído sua tarefa “não oficial”. Pediu as garotas da limpeza para limpar o local, afinal já havia algum tempo que aquilo não era feito, e ele não podia arriscar que fossem encontrados vestígios do sangue de Nonato lá.

Um pouco assustado com tamanha sorte, a polícia chegou pouco depois de concluída a limpeza no local, e Ricardo os recebera com toda a cordialidade e calma do mundo, da mesma forma que recebera outros policiais, para falar de outros casos. A frieza em seus atos, afinal, detinha algumas vantagens. A polícia saiu de lá e ele acreditava que quase sem suspeitas sobre ele.

O tempo foi passando, e Ricardo acreditava veemente que aquela história toda se encerraria quando menos percebesse, mas algo dizia que não seria tão simples assim.

CONTINUA (por pouco tempo)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O dom ( parte 4)

Dentro de sua mente ecoava uma voz tão firme, que arrepiava até a alma. A voz o dizia para matar, para matar! Por toda sua vida, ele acreditou que ele havia se tornado um médico legista para encontrar culpados. Ele detestava casos comuns, pois só implicavam em dor. A dor de quem fica, a dor de quem vai, a dor de não sentir mais nada... Morrer... Muitos achavam que ele era um ‘papa defuntos’, mas ele detestava a morte, ver tantos corpos lembrava à ele que a morte punha fim em todas as diferenças, punha fim à todas as lutas e conquistas, levava tudo de você. Naquele instante, ele percebeu, a morte era o fim, não era continuidade coisíssima nenhuma, não era liberdade, a consciência de Nonato morreria ali, mesmo que houvesse um espírito, a consciência esvairia, não havia dúvidas. Nonato tinha que morrer!
Ricardo girou o bisturi bem devagar, o corpo de Nonato contorcia a medida de cada volta. Braços, dedos, olhos mexiam em frenesi, ele tentou se enganar que aquilo fosse dor, que enfim o audacioso e presunçoso Nonato estivesse recebendo aquilo que plantara. Por isso ficou naquele movimento por algum tempo, até que todos os reflexos cessassem por fim.
O corpo de Nonato estava sobre o de Dulce, Ricardo sentia pena dela, até depois da morte, havia porcos sedentos desejando-a. Uma prancheta em meio à cena chamou atenção dele, estava completamente preenchida, mas não havia passado mais do que uma hora. Ele tomou-a em mãos e leu seu conteúdo, Nonato havia feito toda a autópsia no corpo. “É uma fraude!” Pensou Ricardo, empurrou o corpo do rapaz, que se encostou a uma das beiradas da mesa, e viu todos os cortes e sinais de uma autópsia. Aquilo o encheu de nojo, Nonato fora capaz de desfigurar tão belo corpo, ele fora capaz de invadir a privacidade de uma mulher!
Ricardo se envergonhou por ter pensado tamanho absurdo, Dulce estava morta, e ele parecia não estar convencido. Algo realmente impressionava, Nonato havia feito toda a autópsia em uma hora. O corpo estava limpo, aparentemente ninguém havia feito aquilo com ela. Por que uma mulher tão linda cometeria suicídio ainda não havia compreendido, mas ao menos aquilo chegava ao fim.
Além disso, havia algo mais importante para pensar naquele momento: “O que fazer com o corpo de Nonato?”
Antes de tudo daria fim ao caso de Dulce, arquivou tudo o mais breve possível, e sentou em sua mesa de canto, refletindo. Ricardo conhecia bem Nonato, o rapaz vinha de família rica, era um gênio inconseqüente, ficava dias sem voltar para casa. Por isso ele sabia que levaria tempo para que notassem a ausência dele. Por sorte, no prédio só havia uma câmera de segurança na portaria, e estudantes e funcionários também tinham acesso às entradas laterais do local. Se ele desse um jeito de sair com o corpo por qualquer uma das entradas, não haveria vestígio de que Nonato tenha ficado lá. Além disso, ele tinha um álibi, ele havia concluído o caso às 1:32h da manhã, e Ricardo só chegou lá, às 1:40h, em 8 minutos alguém sairia do prédio. Estava decidido, Ricardo diria a verdade sobre ter voltado para casa. Mas se fizessem uma busca na sala, encontrariam vestígios de Nonato lá. Foi quando na sua frente surgiu uma silhueta feminina, era de novo Dulce, ele estava ficando muito atormentado com aquilo tudo. E algo sugeria que a voz em sua mente era a da mulher, mas ele não podia perder tempo com loucuras, ele tinha apenas 4 horas para sumir com o corpo de Nonato.
Uma voz em sua mente surgiu de novo, e ele já não via mais Dulce em sua frente, ele havia decidido a melhor forma de sumir com o corpo. Começou tirando as roupas de Nonato, depois ligou uma máquina para drenar seu sangue. Aquilo levaria algum tempo para terminar, enquanto isso tomou os papéis do caso de Dulce em mãos e entregou ao diretor do lugar, assumindo toda a responsabilidade por ter saído mais cedo, para pegar o dito documento, fez um teatrinho de que tentou fazer à surdina, mas que a consciência não o permitiu. E deixou bem claro que Nonato havia concluído o caso sozinho, e que não estava mais lá. Antes uma advertência, do que acusação de assassinato.
Voltou à sala onde o corpo se encontrava, e o sangue já havia sido drenado. Ligou o som em último volume, assim saberiam que não queria ser incomodado, e não o pegariam em flagrante. Tomou a serra em mãos, e pouco a pouco partia o corpo de Nonato membro a membro, como quando se corta um peru no Natal. Trabalho concluído rapidamente, o que viria após seria mais complicado, Ricardo repartiu cada pedaço em pedaços ainda menores, e colocava cada parte em uma sacola de evidências, e em 3 horas, não havia mais ‘corpo’ para se falar, apenas partes dele.
Ricardo não usava as gavetas do arquivo designada a seus pertences para nada, e o corpo coube bem dentro de uma delas. É claro que ele não poderia deixá-lo lá, em 3 ou 4 dias a polícia viria fazer uma busca, e sumir com 84 sacolas recheadas com partes de um corpo não seria feito facilmente.
Ele se envergonhou com a nova idéia que teve, mas não havia outro jeito.