João, parado, pensou no que Aluízio ganharia fazendo uma brincadeira daquelas. Os médicos foram categóricos em dizer que os tiros foram de raspão e que não havia furos ou ferimentos profundos no corpo dele. Analisou o amigo, com rugas muito mais profundas do que as dele, a expressão, especialmente naquele dia, preocupada e cansada. Suas mãos estavam em um tom avermelhado, do mesmo jeito de quando cai um pouco de sangue e tentando limpar acabamos espalhando tudo. Por um instante olhou as balas na mesa, de aparência fosca, entre as falhas de sua superfície notava-se sangue seco incrustado. Ao que parecia, Aluízio não estava brincando, é claro que as balas não podiam ter saído de sua cabeça, mas o que quer que tivesse ocorrido, ele não podia entender de outro modo.
- Por que cê acha que elas saíro da minha cabeça?
- Ce deve ta pensando que eu sô doido, mas ontem quando eu tava te segurando, eu senti a sua cabeça latejando muito, tinha um buraco enorme nela, parece que o menino acerto os tiro muito pertinho um do otro. _Aluízio ajeitou-se na cadeira_ De repente parou de latejar, e saiu essas bala. Foi quando parou de sangrar e ocê acordô.
- Aluízio, não tem condição o que cê ta me dizendo, não tem buraco nenhum na minha cabeça, os médico dissero pra Carme que não tinha nenhum ferimento profundo nela. Na verdade, eles dissero que não tinha nenhum ferimento grave!
- João, eu num...
A porta abriu, entra outra enfermeira, que pede calmamente para Aluízio se retirar.
O senhor sai sem se despedir, puxa as balas consigo e guarda no bolso, onde manteve a mão alisando-as, soava como se quisesse conferir se eram mesmo reais. Passou pela porta sem olhar para trás, enquanto João olhava-o pensativo.
João continuou no hospital por mais um dia em observação. Estranhamente, não sentia um pingo de dor que fosse, e a verdade é que as mãos estavam perfeitas, não tremiam mais e agarravam coisas com firmeza, coisa que há tempos não acontecia. O médico recomendou que ficasse alguns dias em repouso, e permitiu que João trocasse os curativos, visto que ele não permitiu que ninguém tocasse. Seu filho o pegou de carro, sem dificuldade João entrou, e depois de conversarem um pouco pediu que antes de ir para casa fossem ver Aluízio.
Luiz deixou o pai na casa de Aluízio, e foi ver um amigo enquanto isso. João tocou a campainha de som elétrico e estridente, e esperou até que o amigo fizesse o longo caminho pelo corredor que dava acesso ao seu barraco. A loja de João ficava do lado de sua casa, Aluízio era viúvo e dividia o terreno com satisfação. Com expressão derrotada abriu a porta. João caminho com o amigo em silêncio até o barraco levando uma caixa de primeiros socorros na mão. Aluízio caminhava devagar até a cozinha, e foi quando João fez um pedido, sentando-se no sofá.
- Vêm, tira meus curativo, quero que cê veja com seus próprios olhos. _ João tirou a camisa, mostrando duas outras bandagens na barriga, próximas do peito.
Aluízio parecia não entender muito bem, olhou assustado para João que abria a caixa e colocava alguns artigos sobre a mesa de centro.
- Vai, tira os curativo da minha cabeça, veja ocê memo. Eu num quero vê você com essa cara pra sempre.
- Eu não sei mexer com essas coisa, é perigoso João.
-Não me importa não, vamo tira isso em nome da nossa amizade!
Aluízio se aproximou quase tão devagar quanto no dia do ocorrido, sentou-se perto dele e puxou com cuidado o curativo, que sozinho tampava os três ferimentos. Os olhos de Aluízio encheram-se de lágrimas, e por dentro ele sentia como se não fizesse parte do próprio corpo, uma cicatriz completamente fechada, com fios de cabelo apontando pelas bordas deixou-se mostrar.