domingo, 17 de outubro de 2010

O Dom

Algumas pessoas repugnam o trabalho de Ricardo, mas para ele era mais do que honroso, era um dom concedido por Deus. Ser médico legista, para Ricardo era como ser o matador de dragões, que aceitava o desafio que ninguém mais teria coragem de fazer.

Desde criança, ele apresentava a ânsia por abrir corpos, seus animais de estimação mortos, os ratos da ratoeira, lagartixas, nada escapava de seu canivete. Seus pais o levaram a psicólogos e psiquiatras, temiam estar criando uma mente psicopata. Mas era muito mais como uma mente genial em busca de conhecimento. Como todos previram, Ricardo cursou medicina, mas para a surpresa até de amigos mais íntimos, se especializou em medicina legal. No começo ele achava um tanto assustador, as coisas não são como nos filmes, não funcionam como deveriam funcionar, ficar sozinho diante de um corpo era algo banal, mas o silêncio atordoante do necrotério era o maior peso para Ricardo. E para espanto e terror de alguns inexperientes estudantes de medicina, ecoava pelos corredores o som de Kyrie, Agnus Dei, Moteto Ave de Mozart. Sua outra grande paixão.

Autópsias são por si demoradas, mas para ele eram ainda mais, visto que os casos mais importantes e demorados eram postos em suas mãos, Ricardo atendia no máximo três casos por dia, participou de importantes casos com repercussão nacional, era o melhor no que fazia. Era uma pessoa comum, com muitos amigos, uma noiva. Vindo de família rica, se formou bem cedo, e aos 32 anos já tinha prestígio invejável até por veteranos.

Em certa segunda feira, surgiu um novo caso em suas mãos, uma mulher de 26 anos fora encontrada morta dentro do carro, vidros fechados, cano de descarga interrompido e o carro ligado. Um suicídio por envenenamento por monóxido de carbono, algo comum para Ricardo.

Deveria ter cuidado especial com esse caso, era uma prostituta, e poderia ter sido morta por um cliente insatisfeito ou chantageado. Havia sinais de que outra pessoa dentro do carro, pouco antes do sucedido, mas era de se esperar alguém dentro do carro de uma prostituta. Tomou os procedimentos burocráticos normais e preparou a sala. Ele gostava de levar casos complicados para jovens estudantes, com o peso de não errar na frente dos outros, tomava mais cuidados do que o normal. E isso lhe poupava certos trabalhos, que qualquer estagiário faz se quiser subir na vida.

Nonato, o menino prodígio, pôs o corpo da mulher sobre a mesa, e depois de uma breve explicação e preparação dos universitários para o que viria em breve, Ricardo puxou o zíper com cuidado, dizendo:

- Apresento a vocês, a prostituta Dulce. 26 an... _Ricardo se interrompeu, com expressão assustadora.

Os estudantes ficaram extasiados com o olhar de Ricardo, parecia ver um fantasma.

Seu coração acelerou, o suor descia frio por seus fios de cabelo ralo, ele tentava continuar a dizer, mas parecia hipnotizado. Foi quando Nonato brincou:

- Essa devia cobrar bem caro.

Por um instante Ricardo concordou com o rapaz, ela era realmente linda, seu corpo já estava sem vida, mas a maquiagem ainda no rosto de Dulce, disfarçava a palidez e parecia que a mulher dormia. Foi quando voltou a si, e a frieza de um médico redobrou-o, e respondeu firme:

- Peço respeito, não à morta. Mas a memória dela, e àqueles que a prezam. Sem brincadeiras, certo?

Trabalhamos com um possível homicídio aqui. Embora os sinais mostrem a auto-intoxicação por monóxido de carbono, as circunstâncias nos levam a estudar o caso com mais cuidado. Por isso preparem suas pranchetas, e vamos dar início à autópsia.

No princípio houve o exame externo e não fora encontrado nada fora do comum, hora de dar início ao exame interno, Ricardo se preparava para a primeira incisão. Feia em forma de Y indo do peito ao púbis, é algo bem forte para principiantes, as mãos de Ricardo estavam trêmulas, ele simplesmente não conseguia fazer. Estavam junto com ele Nonato, Luciana e André, os melhores de suas turmas e aspirantes a médico legistas,os três ficaram parados sem entender. Ricardo enquanto punha suas ferramentas na mesa, se desculpava:

- Bem, perdoem-me, hoje não é um bom dia para mim. Preciso trabalhar sozinho, Carmen está com um caso de acidente, e isso é muito trabalhoso, são muitos resíduos e partículas presos ao corpo, procurem-na. Boa Noite.

No trabalho, Ricardo era um homem de poucas palavras, era frio, calculista. Não sabia o que estava acontecendo, era como se Dulce fosse uma íntima dele. E em nome de seu valor profissional, foi até a portaria, tomar um ar, e se preparar para o trabalho inevitável, sua obrigação.


CONTINUA

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